25.2.11


heart block - cloudy rainy weather listening to gorillaz plastic beach and it's great, on jellyfish track i think i heard "don't waste your time on the net"; sometimes you know the thing but you need to hear the thing from out of your head - good fuck and sleep are the key to something i don't dare to name right now.

19.2.11

A Great Unrecorded History

Ler biografias é interessante, a narrativa parece sempre acabar de forma abrupta. Por mais que o livro seja um calhamaço de 400, 500 páginas. E por mais que seja descrita pontuando apenas o que é relevante. Ontem cheguei à ultima página de A Great Unrecorded History, biografia divertida e concentrada na vida sexual de Edward Morgan Forster, autor de Howards End, Passagem para a Índia, Maurice, etc. Colm Tóibin diz que Moffat, a autora desta biografia, recriou uma vida muito mais interessante do que na realidade foi.  Como ele pode saber? O que quer que ele conteste ou acredite saber será tão "fictício" quanto a versão de Moffat.

Um fato intrigante colocado no fim do livro é que Morgan determinou em testamento de que tudo aquilo que ele escreveu a mão não fosse digitalizado, ou copiado por qualquer tipo de máquina. Daí que cadernos, diários, cartas, dentre outros manuscritos, estão espalhados por universidades nos dois lados do Atlântico. Os pesquisadores precisam se deslocar até o Texas, Califórnia, Connecticut (Beinecke Library - maior biblioteca de manuscritos e livros raros do mundo) e Londres caso queiram copiar (também à mão) o que precisam. O curioso é que a vontade do artista prevaleceu à demandas acadêmicas e do mercado editorial. Claro que contrariar o desejo de Kafka, por exemplo, de destruir seus manuscritos após a sua morte são outros quinhentos... mas mesmo assim...

Recomendo a leitura dessa biografia, está disponível na livraria cultura, e ainda não foi traduzida no Brasil.

17.2.11

Joe Ackerley era um dos amigos mais próximos do Morgan (E. M. Forster), 17 anos mais jovem, muito bonito, rico e da pá virada. Na biografia de Forster, escrita por Wendy Moffat, A Great Unrecorded History, Joe aparece como sex machine, tipo, se algo (um cara) se mexesse ele voava em cima. A preferência era por guardas, policiais, e até ladrões - ele se fazia na boca do lixo.

No entanto, acabei de ver que não era bem assim. Um artigo da NYorker mostra que o grande amor da vida de Joe foi uma cadela, Queenie, uma pastor alemão com quem ele viveu 15 anos. Ao lado dela, a vida social dele foi esfriando. Joe escreveu um único romance, We Think The World of You (1960), que, apesar de apresentar personagens gays - até 1967 ser gay era crime na Inglaterra, o enredo gira em torno da cadela Evie. O artigo fala que Joe era do tipo que não engatava relacionamento com ninguém e os pegas dele ficavam só na punheta camarada. Ele tinha nojo do resto. O que levou o biógrafo mais reconhecido de Morgan (P. S. Furbank) a afirmar que Joe era hétero e não sabia. A relação bizarra dele com Queenie seria um indício. Joe descrevia em minúncias coisas tipo: a delicadeza de Queenie fazendo número 2, como ela lembrava um tripé estrategiacamente postada para não se sujar na própria caca; e quando Queenie entrava no cio, sua vulva era massageada por Joe até ele receber jorros do líquido quente dela nas mãos. Ele chegava a detalhar sobre o que fazia com o dedo na safadinha... Queenie era hiper ciumenta, não suportava ver ninguém perto de Joe, e ele um completo freak: ele também gostava de observar a transformação de Queenie no bicho que de fato era, por exemplo, quando ela caçava coelhos. Joe esmiuçava até mesmo isso em seu diário: a beleza assassina, predadora de Queenie, ao estalar o crânio de coelhos entre os dentes.

Joe encarava esse tipo de descrição naturalmente, assim como ele fazia com tudo na vida. Morgan (na biografia) o aconselhava bastante, geralmente em relação ao jeito folgado do amigo, que podia ser confundido com abuso: "Menos Joe, menos..." Segundo o artigo, tanto no romance quanto em suas outras obras, três livros de memórias - um deles à Queenie, My Dog Tulip (1956) - Joe problematiza justamente isso: o que pode ser dito? O que implica mostrar aquilo que não se menciona, por convenção?

11.2.11

tired of beauty
satisfied with physical exaustion
puzzled by my being a friend
i like constructions like this:
puzzled by my being a friend
or
i appreciate your sucking
and
i'll wash the blood from my hands and get out of here so kiss me goodbye 'coz i really have to get my ass off
people go south
with books of mine which were not a gift of mine
were just my lending them (yeah that construction)
some other time i like to think of them people with my books
i even like to think of my books taken away, lost forever, maybe already recycled in news paper
well
i like the syntagma FUCK OFF
and that makes me remember the missing of my reading (yeah yeah again) of hornby
tentei traduzir esse poema "pensamentos perigosos" mas tá ruim de ficar bom

Dangerous thoughts


Said Myrtias (a Syrian student
in Alexandria during the reign
of the Emperor Konstans and the Emperor Konstantios;
in part a heathen, in part chistianized):
“Strengthened by study and reflection.
I won’t fear my passions like a coward;
I’ll give my body to sensual pleasures,
to enjoyments I’ve dreamed of,
to the most audacious erotic desires,
to the lascivious impulses of my blood,
with no fear at all, because when I wish—
and I’ll have the will-power, strengthened
as I shall be by study and reflection—
when I wish, at critical moments I will recover
my spirit, ascetic as it was before.”



Cavafy 



tradução pro inglês:  1992, Edmund Keeley and Philip Sherrard

2.2.11

Lendo a biografia de E. M. Forster, A Great Unrecorded History. Está sendo uma aula sobre queer art na primeira metade do século passado. Forster fazia boas amizades através de seus ensaios, que despertavam a empatia principalmente de artistas iniciantes. Eles geralmente identificavam entrelinhas que passavam batidas pelo público leitor em geral. É o caso de Paul Cadmus, pintor e desenhista americano.


Esse é um dos trabalhos mais famosos dele, The Flett's Inn, de 1934. A tela teve de ser removida da galeria em que foi exibida na época. A representação do casal gay incomodou o público.

Essa outra, Jerry (1931) teve como modelo Jerry
French, amante de Paul. Jerry era casado com Margaret Hoening, também artista plástica. Formavam um menage a trois famoso. O que deixava Forster intrigado, ele que tinha o povo do Bloomsburry como referência,  só que estes eram muito discretos em comparação com o trio novaiorquino. Parece que os três realmente funcionavam como um trio, iam pra cama juntos e tal. Essa pintura comemorava o Bloomsday, e também era bem subversiva pois ilustra o livro de Joyce, que na época estava proibido de circular. Era um livro maldito.


Cadmus produziu bastante e o trabalho dele é fantástico. Esse aqui é Arabesque, que tem várias versões tanto em gravura quanto pintura. Para Forster, tanto o trabalho quanto o estilo de vida dos amigos americanos o atraía por serem descomplicados, bem-humorados, sem medo. A condenação de Oscar Wilde o traumatizou. Talvez por isso os ensaios dele sejam repletos de mensagens subliminares, com as quais os artistas mais novos se identificavam: "Tolerance, good temper, and sympathy are no longer enough in a world which is rent by religious and racial persecution, in a world were ignorance rules..." e por aí vai num dos ensaios mais famosos dele, What I Believe. 

29.1.11

Vi uma cena no Chico Xavier da globo que me fez pensar em alugar o dvd quando sair. Ele tem um piti super pintoso no avião no meio de uma turbulência. Daí uma entidade abusada e bonita diz pra ele dar exemplo e aproveitar a ocasião pra mostrar sua fé. Chico diz histéric@mente "mas eu vou morrer como todo mundo!" A entidade sexy diz: "pois pelo menos morra educadamente."
***
Sou curioso e já cheguei a sair de casa pra ver O Império do Besteirol Contra-Ataca (faz muito tempo). Noto que pouca coisa mudou em termos de opções cinematográficas em Fortaleza depois dos multiplex e do fechamento dos cinemas do centro nos 1990's. Tipo, em 12 salas num shopping center distribuem 4 filmes, sendo 3 direcionados pra pivetada. O espaço unibanco é fraco e mal conduzido. Mas eu só queria dizer que não gostei do A Rede Social e quase todo mundo com quem eu falo é da mesma opinião. Menos os críticos especializados. Talvez seja um problema de leigo, que não entende bem sobre técnica, montagem, etc. Sylvia Colombro porém concorda comigo. Filme bom que vi foi Você vai conhecer o homem dos seus sonhos (You will meet a tall dark stranger). Também não sou expert em Woodie mas gosto dele. O meu predileto dele é Manhattam. Depois que vi o último, disse pra um amigo: ele usa sem medo recursos super batidos da narração, aquela que engancha imprevisibilidades pra prender o ouvinte.
***
A rua augusta em sampa agora no jg. Comprei ótimos filmes piratas ali. Coisa fina. Fellinni, Tarkovski...
***
Vi Taniko a primeira das dionisíacas do Celso Martinez no TJA. Chovia, e o trajeto até o teatro me deu mais prazer do que o espetáculo.
***
Bob's dead.     

20.1.11

Sarah Kane


Lembro da cara espantada de uma vendedora quando eu perguntei se havia algum volume de Adoro Morrer, um livro de contos que comprei faz muito tempo. Lembro que a vendedora disse muito timidamente "Deus me livre, eu adoro é viver." Ontem eu pensava sobre o "fascínio" que tem essa coisa toda do suicídio. Pelo menos para algumas pessoas, o assunto desperta no mínimo um recolhimento rápido, uma parada pra pensar (e pesar), por mais que num primeiro momento o suicídio pareça algo que escape ao entendimento. Por mais que comunique apenas uma sensação ligeira, como quando você não encontra a palavra certa e a pessoa na tua frente diz "tudo bem, eu sei, eu entendo". A sensação que causa o suicídio é como essa frase "eu sei". Não representa o fato (a pessoa não sabe exatamente), mas sente um resquício de entendimento, e com isso acredita ter adivinhado o que o outro não conseguia expressar. Bem, nem eu entendi muito bem o que eu disse, mas a idéia do suicídio causa essa parada, essa imprecisão mesclada com espanto e admiração. Quem se mata parece exercer um tipo de soberania existencial que somente quem é gente é capaz de exercer.

Digo isso também porque ontem comecei a escrever um poeminha para o vira-lata ancião aqui de casa, que tem sofrido muito com mazelas da degeneração física. Ninguém sabe ao certo a idade dele, Bob, mas acreditamos que está chegando na casa dos vinte. Eu quis dizer no poema que o Bob, pela natureza hedonista dele, provavelmente pularia de um prédio ou se afogaria caso não fosse apenas um cão. Óbvio, essa idéia tem mais viagem do que fundamento, afinal é um poema pra um blog que tem, se muito, um leitor ou dois: o traças.

Certa vez, quando eu conversava com uma amiga sobre fazer um trabalho envolvendo poetas suicidas,  Plath e Ana C., acabamos descobrindo a dramaturga Sarah Kane. Ela se matou no banheiro de um hospital psiquiátrico com os cadarços do sapato em 1999. Li agora mesmo um trecho de Phaedra's Love, uma espécie de releitura de um mito antigo escrita por ela. Eurípedes também o utilizou na sua tragédia Hipólito. Outros autores, como Sêneca e Racine, também produziram textos tendo por base essa história mítica, sobre uma mulher apaixonada pelo enteado (Hipólito), e que acaba encontrando no suicídio a solução para os seus males. Encontrei o trecho de Phaedra's Love no artigo *Phaedra's Love de Sarah Kane: Tradução, Adaptação, Encenação da professora Tania Alice Feix. O artigo discorre também sobre a experiência da montagem da peça pela Companhia de Teatro Partículas Elementares da Universidade Federal de Outro Preto.

Na versão de Kane, Hipólito é o personagem central, como sugere o título. Destaco aqui duas falas dele que ilustram um pouco a vibe da peça. Phaedra, apaixonada pelo rapaz, consegue fazer um boquete nele. Logo em seguida o enteado diz: "Pronto. Acabou o mistério. Agora que você me teve, vá trepar com outro." Imaginando uma filiação tosca no campo da ficção, esse Hipólito seria filho do narrador de First Love de Samuel Beckett! Quando Hipólito recebe a visita de um padre, que procura convencê-lo a negar o estupro da madrasta (Phaedra é estuprada!) para que assim fosse perdoado, ele convence o padre a também lhe fazer uma felação e em seguida joga na cara do padre: "Eu sei o que eu sou. E o que sempre serei. Mas você peca sabendo que vai confessar. Depois é perdoado. E começa tudo de novo. Como você se atreve a sacanear um Deus tão poderoso? A não ser que realmente não acredite nele." Isso é muito Beckett, claro, só que na década de 90. Na verdade, a indiferença, a desilução, o cinismo fazem entrever semelhanças com o bom e velho Sam. Vou procurar as peças da Sara. Por enquanto, é possível experimentar um pouco do que essa mulher interessante "pensou" para os palcos em adaptações para a TV que foram parar no youtube.

* O artigo compõe o livro Tradução, Vanguardas e Modernismos. Vários autores. 2009. Editora Paz e Terra.  

13.1.11

Contrariando outras urgências, estou lendo uma biografia de Forster: A Great Unrecorded History: A New Life of E. M. Forster, de Wendy Moffat. É boa. Na verdade, tem momentos muito bons e outros desinteressantes. O título "A great unrecorded history" foi retirado das anotações de Forster. Na época, logo quando ele ingressou na vida sexual, aos 37 anos, percebeu que haviam muitas histórias (e muita História) fadadas à clandestinidade, esquivas a qualquer tipo de registro devido à então intolerância legal à orientação gay. Bem no centro do livro há uma seleção de fotos que mostram que Forster, apesar de feioso, se deu muito bem com belos amantes ao longo da vida.

20.12.10

tem o curso "natural" das coisas e sua força praticamente imbatível
e do outro lado, eu, e uma enorme preguiça de combater o curso natural das coisas
a vontade, na verdade, a opção no momento, é deixar.
Queria falar sobre um cd incrível, Menti pra você, de sotaque recifense arrojado: Karina Buhr. As letras e arranjos são bem interessantes. Gosto de cantar Nassíria e Najaf.

17.12.10

Eu costumava ler um pouco os contos da new yorker. Virou um hábito entrar ao menos uma vez por semana, ver se tinha algo interessante nos primeiros parágrafos e salvar a história em arquivo (porque as histórias eram retiradas quando o autor publicava em antologia ou algo assim). Os textos agora não estão mais "free of charge", a maioria estão disponíveis só para a$$inantes. Tudo bem, eu pensei, foi bom enquanto durou. Afinal, existem muitos outros meios de acessar literatura escrita em inglês. Mas dos autores que li naquele site, o que mais me interessou foi a chinesa Yiyun Li. Ela foi pros states estudar imunologia e matriculou-se num workshop de criação literária para praticar a escrita do idioma. Tornou-se escritora por acaso. Numa entrevista (aqui), ela trata de questões que por acaso tive em mente ultimamente: o que é ficção? quando não é ficção?, por exemplo.

Fiz um artigo recentemente sobre o romance O Falso Mentiroso: memórias (2004), do Silviano Santiago, e Fragmentos: memórias de uma infância 1939-1948 (1998), de Binjamin Wilkomirski. São duas obras de ficção. A primeira problematiza o gênero memorialístico, o conceito de cópia e original, dentre outras coisas. A segunda fez algo parecido, porém por meio escuso, por meio de uma farsa literária: o autor forjou para si uma identidade nova (na verdade, o cara se chama Bruno Dössekker, um professor de música) e afirmava (jurava de pés juntos) que seu livro era o registro de sua experiência traumática, quando criança, nos campos de concentração. Onde, como descobriram, ele realmente esteve, só que como turista e já adulto, muitas décadas depois.

O entrevistador pergunta a Li como ela definiria autobiografia. Ela responde com o óbvio: é a escrita sobre a vida do escritor, suas histórias de vida. E distingue que o fato de criar a partir de fatos e pessoas que a cercam, sobre o que ela ouviu falar, não está nessa categoria. Ela não conhece de antemão os fatos ou as pessoas que cria na ficção. Eles brotam de sua imaginação, apesar do ponto de partida ser algumas vezes uma impressão real. Esse modo de escrever surgiu por acaso. No começo no curso de criação literária, ela teve, meio que a contragosto, que matricular-se numa turma de escrita de não-ficção. Parecia impossível a simples idéia de escrever sobre si mesma. Porém, por não-ficção pode-se entender o mundo, sem necessariamente ser preciso tocar no aspecto biográfico. Outra coisa interessante é o modo como ela se relaciona com outros escritores, e constrói seu intertexto. Ela "conversa com escritores através da própria escrita", por exemplo, quando leu a opinião de Iris Murdoch de que amar alguém de quem você nem mesmo gosta seria algo imoral, ela pensou em escrever uma história contestando tal visão: um indivíduo, mesmo sem gostar do outro, o ama, e sob uma perspectiva moral.

Passei o semestre lendo e discutindo sobre a importância de deixar autor (e sua vida) em paz e direcionar toda atenção somente ao texto. Li, no entanto, é tão instigante que rondou agora o desejo de ir a California só pra fazer o curso de criação literária com ela, e... conhecê-la.

16.12.10

biopics

Raquel é professora de inglês em Meruoca. Tem vinte e poucos anos, guia uma bis muito concentradamente (quando a vi passando segunda-feira em frente a pousada, não ousei chamar pra não atrapalhar) e é fã de Vander Lee (que eu não sabia quem era até então e agora sei graças ao youtube). Vai embora pra São Paulo, vai casar. Deixa pra trás rios, cachoeiras (banhos), cumes, vistas, um sítio, seu trabalho, alunos, amigos, família, toda uma cidadezinha na qual ela aprendeu muita coisa (opinião minha). Ela me faz lembrar de uma personagem da Nélida Piñon cujo nome e obra já esqueci, mas que amadurecera sem precisar sair pelo mundo, encerrada no universo que então era possível. Dei a ela Flush, da Virgínia. Espero que ela goste. Desejo que a vida continue sendo boa com ela.

1.12.10

boa e velha Marianne Moore

Poesia

Eu, também, não aprecio: existem coisas muito mais importantes além
desse passatempo.
Ler, porém, com perfeito desapego, alguém
descobre nisso, um lugar para o genuíno
Mãos que podem pegar, olhos
que podem dilatar, cabelos
que podem eriçar
se assim tiver de ser...
what about dancing? descubro aos poucos qual a realidade de dançar. O movimento, a tomada do espaço, ceder espaço, o ponto g do ritmo, a entrega, o ritual, experimentei inocente, sem culpa ultimamente... 


tou super curioso por ver o filme Black Swan, do Darren Aronofsky, mesmo lendo agora a crítica desfavorável da New Yorker. Segundo a nota, a história é sobre uma bailarina dedicada (Natalie Portman) que tem como desafio mostrar que é capaz de encarnar tanto o cisne branco (pureza) quanto o negro (sedutor-devasso), dualidade presente na obra de Tchaickovsky.   Black Swan impõe à dançarina um mergulho no lado irracional e erótico (dionisíaco?) da dança. O problema do filme segundo o texto da NY foi a mão do diretor, que desandou na mistura de lirismo com morbidez. A vontade agora de ver o filme só aumentou.


Et, a nova da PJ é tão world music 
não canso de ouvir lá nos primórdios, depois de tempos
hoje o bully-teacher brincou com dois alunos que ousaram conversar no meio da aula stand-up comedy de informática (horrível). Ele disse: então, vocês são amigos de anos... e quase todo mundo deu risada.


Todos os indícios apontam que, irremediavelmente, não faço parte da turma 2.0, o povo super antenado com as redes sociais, com o mundão virtual. Sou, na melhor hipótese, 1.0. Pensei dia desses num poema da Ana Cristina que diz ser uma mulher do séc. XIX disfarçada em séc. XX e fiquei constrangido de como provavelmente meu retrocesso pode ir muito mais pra trás (ou não, suspeito que não). Bem, por isso decidi ler You Are Not a Gadget - A Manifesto, do Jaron Lanier. Na capa, que tem a forma de um palmtop (deve ser palmtop ou ipod), diz: You have to be somebody before you can share yourself. E, wow, deveras. Mas o que significa ser alguém? Ou como o autor mesmo questiona no início do livro: o que é uma pessoa? Parei a leitura na primeiras páginas e retomei outro livro, esquecido e interrompido por uma década na estante: O Mundo de Sofia...     


    

língua cortada

Quando ganhamos fala?
Ganho e perco a fala, assim, sem mais nem menos
Daí dou as costas, simplesmente
e quando treino bastante, a fala, ela sai dormente
como se nem minha fosse
não confio em regressão
Não sei porque, acho que puxaram demais o meu cabelo e o fato de eu não ter gritado na época tem relação com isso tudo
virei um oximoro
 um dito não-dito ambulante
um esforçado sem-força
completa incompletude
discreta aberração
et al
e o que mais
os cabelos caem, por isso me preparo com exercícios de grito super difíceis de realizar num lugar como esse, povoado-deserto
pois não se sabe o que será desperto
Parece ter sido ontem: tanto falei que fiquei rouco de amor
ele, um fantasma de contornos cortantes
uma faca
não é um estorvo dançar com uma lâmina entre os dentes?
tenho uma faca afiada
na boca

15.11.10

90's

Não consigo deixar de escutar esse video do Madison Avenue. Nostalgia boa. Sem falar no EBTG. Os anos 90  prometia um futuro de overdoses de housemusic e tecnô, e liberação total. A narrativa do clipe The Real Thing da Lisa Stansfield, era o próprio futuro. Pronto. A MTV mostrando diversidade e igualdade de gêneros! Três Formas de Amar no escuro do cinema. A década parecia uma prévia do que estava por vir. Havia um revival intenso da era de aquário. O Prior de Angels in America (peça de 1992) acreditava que o futuro onde todos, independentemente de orientação sexual, cor, e classe social teriam os mesmos direitos havia chegado naquele período. Enganou-se. Por outro lado, falando por mim mesmo, foi incrível ser adolescente nessa época. A descoberta do mundo e tudo mais... Onde andará Lisa? E o Luc Perry? Já deu essa sessão looking back. Como diria mi padre, sigamos em frente.

7.11.10

Sugestões

Escreva Lola Escreva: blog excelente, da Lola Aronovich, minha intelectual sista.

Sam Sparro: uma mistura de Nikka Costa e Killie Minogue, versão sexy gay boy.

1.11.10

Minhas canetas desaparecem sem mais nem menos. Desatenção? Desapego? Quando me ligo nelas, sem dar chance para colegas cleptomaníacos, ou desconhecidos próximos mãos-bobas, elas param de funcionar. Pessimismo?
Desengano: comprei velas aromáticas sem aroma. Baunilha,canela, maçã verde, quando queimam, não cheiram.
Coleciono bichos punheteiros. Um sapo, um macaco, um anão. Perguntaram-me pelos nomes. Eu disse não têm nomes. Disseram-me para pôr nomes. Eu disse eu não. Por que? Calei e mudei o assunto. Cada um com a sua. Relendo livros (na falta de sexo), escutando cds antigos (na falta de saco pra reler livros), anotando essas coisas que nem sei mais pra que servem. Um dia pensei que equilibrava o baque da metamorfose. Mas equilibra o que nem vou dizer que equilibra pra não ofender a mim mesmo. Esse ano foi um ano de cor vermelha, daí, a simbologia corriqueira dessa cor tem de ser ampliada para enquadrar o nosso caso.

27.10.10

walking on the wild side

25.10.10

O último texto da Granta em português, cujo tema é Ambição, termina como uma bomba, pelo menos para mim que no mestrado divergi da idéia de que em arte se pode tudo (poder tudo em arte é bonito, como conceito, só que o holocausto, hiroxima, e diversos outros horrores, relativizaram terminantemente essa questão pra mim) e impressionante, fui voz solitária contra se abordar apenas a "obra em si" apartada de seu contexto histórico.
Bem, após a leitura de O falso mentiroso (memórias), uma obra de ficção na realidade, do Silviano Santiago, em que o enredo pode ser lido quase como um tratado a favor da cópia, da ambigüidade, e mais interessante, da desopilação, no que se refere à fragmentação do indivíduo em vários sujeitos na atualidade - não há crise de identidade, o narrador parece muito bem resolvido com suas imprecisões - li a reportagem da Granta, O homem de duas cabeças. Trata-se da história de um verdadeiro impostor. Muito bem escrita, por sinal, por Elena Lappin, no estilo new journalism, texto jornalístico escrito com requintes literários.
O protagonista é um tal de Bruno Grosjean, professor de clarinete, que na década de 90 publicou, assinando como Binjamin Wilkomirski, suas "memórias" Fragments, memories of a childhood 1939-1948, mais um relato sobre o holocausto que alcançou grande repercussão na época. Nele, Binjamin/Bruno narra os horrores que vivenciou durante a segunda guerra. A obra recebeu condecorações de institutos da memória do holocausto em várias partes do mundo, foi objeto de documentários, e recebeu um prêmio literário nos Estados Unidos na categoria biografia.
No entanto, especialistas sobre o tema levantaram a questão sobre a autenticidade do relato biográfico, pois como dizem, se toda mentira tem perna curta, aos poucos perceberam não só lacunas e ficção na obra, como também diferentes versões orais sobre a mesma experiência a partir dos documentários. Por um lado, Binjamin/Bruno teimava que havia sobrevivido ao holocausto, apesar da pouca idade, apesar de que não há registros de crianças que sobreviveram a Auschwitz; por outro, vários sobreviventes, que não eram crianças no período, reconheceram como autênticas várias passagens do livro. Houve até mesmo o caso de um homem que perdeu o filho num campo de concentração, que também chamava-se Binjamin, e tanto o escritor de Fragments quanto esse homem "acreditaram ser pai e filho".
O fato é que Bruno Grocejan nasceu na Suiça, de origem humilde, foi adotado por uma família abastada, e além da formação musical, também cursou história. Foi quando passou a criar seu arquivo sobre o holocausto. Segundo Lappin, o embuste fictício lembra muito a própria história de Bruno.  Fora adotado, passou alguns anos num orfanato suiço. Lugar que pode lembrar a prisão reconstruída no relato ficcional/biográfico.  Suas histórias, de Bruno e Binjamin, sobre um garoto que não sabe de onde veio, não conheceu os pais, são as mesmas.
Mesmo considerando que, descoberta a farsa, o valor literário da obra distingue-se ainda mais, até que ponto podemos julgar os méritos de uma obra ficcional que foi difundida como verídica? E muito mais grave, colaborando com a idéia de que tudo não passa de ficção, como alegam os países que são hoje sufocados por Israel.

Granta, 4: ambição. Objetiva, 2009.