17.4.09

dançando

Beckett faz parte de uma lista escassa de coisas que vivi na faculdade e que ainda carrego comigo. Ler Esperendo Godot foi um baque. O tipo de leitura que acontece no momento certo. Passada a euforia, depois de conhecer melhor autor e obra, finalmente apareceu a oportunidade de ver a criação no palco. Não é a peça original, que tematiza a expectativa angustiante por algo que não acontece, a chegada de um tal Godot.

ExGodot é um monólogo/performance criado a partir da peça. Eu e uma amiga esperamos bem menos que Didi e Gogo. Após quinze minutos além da hora marcada para o início da apresentação fomos avisados que esta não aconteceria. Falta de público. Um cara com cara de bastidores veio com um papo sobre cortesias para o palco giratório. Perguntou nossos nomes, não anotou, e deu as costas. Tudo muito de acordo, fiquei pensando. Depois vimos por acaso uma apresentação de dança de arrepiar a espinha, Eu Prometo, no dragão de mar. Só consigo fazer analogia com o cinema: nem John Waters, nem Ed Wood seriam capazes.

25.3.09

trilhas

gostei do livrinho o risonho cavalo do príncipe, do josé j.veiga. história teen, contada por narradores teens, demais espertos pra teens. um casal de narradores-personagens, que me lembrou um outro casal de púberes, que não narram nada, são mais personagens-marionetes, do romance pornografia, do gombrowicz. livro pra ser relido.

aderi a onda dos fones de ouvido. eu até antipatizava com a horda de gente padronizada até nisso, mas poder escolher o próprio barulho em fortaleza tem sido mágico. morrissey me acompanhou pelas ruas do centro. roisin murphy perfeita em noites andarilhas. marnie stern sempre. falando em música gostei muito de uma da martinália que vi na tv. não é don't worry be happy, é outra. gostei de ver um verbo conjugado exoticamente pra rimar. ela mudou a flexão e deu super certo. o sentido mudou de leve. esqueci da música, da frase. a procura.

31.1.09

des

noite avermelhada. gripe. não dá pra fumar. não deu pra cantar. deu pra ler teatro. deu pra beber muito chá. dei pra deletar posts depois de perder horas neles. tou quase desistindo. tou quase optando. hoje me apaixonei por uma faxineira. fomos amantes enquanto ela limpava a minha mesa. sabe o amor? acontece quando eu menos espero. ela disse que me conhecia de algum lugar. viajei em segundos. europa central, minas século 18, buenos aires - já estive em buenos aires, basta eu ver o rio de lá que eu sei - data imprecisa, indochina. respondi que não lembrava mas que ela tinha algo de familiar. rosto tímido, recato nos movimentos. hoje vi meu rosto fazer sentido pra um bebê. vi ele criando a noção do meu rosto. ele fez o reconhecimento dos meus traços maravilhado. ele se chama hector. desejei ardentemente poder ver o que ele estava vendo. mas não dá.

21.1.09

carnavao

The Walking Stick Insect

of South America often loses an antenna or leg - but
always grows a new appendage. Often nature makes a
mistake and a new antenna grows where the leg was lost.
-- Ripley's Believe It or Not!
Eventually the
most accident-prone
or war-weary
walking sticks
are entirely
reduced to antennae
with which they
pick their way
sensitevely,
appalled by
everything's
intensity.

Eventualmente os
mais propícios a acidentes
ou cansados de guerra
bichos-pau
são inteiramente
reduzidos a antenas
com que eles
escarafuncham o caminho
sensivelmente
estarrecidos
pela intensidade
de tudo.

dormir pouco me deixa vulnerável a acidentes,
não dormir faz com que eu também seja todo antenas.
tiro cochilos breves, alerta o tempo todo, como uma sentinela.
kay ryan tira inspiração pra escrever após a leitura estimulante de algum grande pensador. ela diz também que extravagâncias na vida acabam por roubar a energia para possíveis estravagâncias da mente. se estiver certa, e acredito que esteja ao menos parcialmente, deve ser essa a razão para o cemitério de textos que cultivo. aqui e ali consigo trazer um texto à tona, à vida, escrito-zumbi. mas tão desregradamente que ainda não juntei quantidade suficiente para um thriller, um filme, o livro. extravagâncias à vista! carnaval-desenganos com tudo que temos direito (pré-carnaval, por exemplo) em um mês.

5.1.09

tou brando


quem resiste à isso
não a beleza máscula
mas a permanência
mesmo incorpórea
mesmo sem garantia
alguma de ser eterna
amanhã?

26.12.08

o mundo e suas voltas

Player alucinógeno: English House, de Fleet Foxes
Chá ou nicotina? Ou música, folk metálico, planície vasta? Quero mais é tudo. Não recuso nem a cereja falsa. Enquanto eu luto pra contar uma história que pode ser resumida numa frase e, portanto, precisa ser enxertada com voltas e mais voltas em torno do céu, da terra, de mim mesmo e do além - que é pra história que pode ser resumida numa única frase valer a pena ser lida - luto pra não me sentir humilhado com os gemidos que ouço. Pediram um favor: vir aqui em casa trepar. I'm uninvited. O trato, não ver nem falar com o desconhecido, para não constranger ninguém. Sexo constrange. Eu não aceitei condições, apenas não disse não. Não me passou pela cabeça participar de nada. Apenas não entendo porque estou escondido dentro da minha própria casa. Minha história que poderia ser apenas uma frase já possui mais de mil palavras. Por mais que não se queira dizer, se diz. Então eu espaireço assim. Era pra eu relaxar com isso tudo que ocorre no quarto ao lado. Não dar a mínima pra nessa situação às avessas. Instruso pela minha própria condescendência! Never more.

13.12.08

living

se eu escuto péssimo, era pra eu falar mais alto, não? falo baixo, baixíssimo, afobando as pessoas que põem caretas e gritam hein, quê, como é? percebo que minha audição é precária, pois apesar de evitar fazer caretas, por vezes, entremeio hein, ãh, nas minhas conversas. respiro horrivelmente também, algo a ver com gripes mal curadas, secreções. eu só queria era dizer que escutei living color nas alturas e foi tão bom, e anterior. e como não é nada ético desfiar certas diferenças entre os seres, não vou falar das pessoas das confraternizações de fim de ano. mas faço de tudo para não aparecer em fotografias. saudade de mim, viu.

8.12.08

na rede com rachel

Leio, pra descansar de uns textos maçantes, umas crônicas antigas da rachel, que como ela mesma diz, se fossem contos teriam que ter mais apuro no enredo e nos personagens. A cronista dialoga com o leitor o tempo todo, reiterando a veracidade dos fatos do texto. Ela consegue manter a corrosão do tempo distante do seu texto aprisionando belezas como nesse relato em que catalogou opiniões de pessoas do seu cotidiano sobre o amor E por último tem a matrona sossegada que explica: "... Amor é ter medo - medo de quase tudo - da morte, da doença, do desencontro, da fadiga, do costume, das novidades. Amor pode ser uma rosa e pode ser um bife, um beijo, uma colher de xarope. Mas o que o amor é, principalmente, são duas pessoas neste mundo."

29.11.08

26.11.08

não deu haicais

sci-fi

elas escrotas
eles sensíveis
ambos sérios e leves

hi-fi

todos de agora
ambos surpreendentes
eles feitos
elas sem medo
de mim

23.11.08

Lizta

um livro policial não surpreendente: uma janela em copacabana (luiz alfredo garcia-roza)
um livro a ser lido, talvez, quem sabe?: o muro (sartre)
um livro a caminho das mãos: antigos e soltos (ana cristina cesar)
e também: the lottery and other stories (shirley jackson)
um livro interrompido anualmente: lavoura arcaica (raduan nassar)
um livro aguardado: reborn (sontag)
um livro a ser escrito, por mim, quem sabe?: não posso revelar
um conto: alice e a velha senhora (cristovão tezza)
versos desconcertantes: Everything about you,
my life, is both make-believe and real.
(listen, charles simic)

19.11.08

19/11

Ainda estou chocado com uma história de Shirley Jackson, The Lottery. Fisgado pela surpresa. Domingo, inusitadamente, joguei basquete depois de... não sei quantos anos. Muito tempo. E hoje, falando com uma colega sobre esportes, mencionei o meu basquetebol-background e ela disse não gostar muito de basquete por ser muito fashion, está na moda, todo mundo adora etc. Não concordei e especulei sobre algum esporte que ela gostasse. Resposta: futebol. Que estranho!, eu pensei. É verdade que futebol não é fashion, nem está na moda no Brasil. O fato é que o futebol não é um esporte por aqui, mas sinônimo de esporte. Qualquer programa de esportes na TV é um noticiário doentio sobre tudo aquilo que envolva isso, o futebol.

Gostei de ver Vicky Cristina Barcelona do Woody Allen. A cena inicial em que o Barden convida Scarlett Johanson e ... pra passear em Oviedo é pra mim o que ganha o espectador. Woody liga pouco pra convenções de imagens no cinema, ele quer mais é contar a história. Algumas cenas parecem construídas sem texto ou sei lá, são improvisações meramente pra ilustrar o que acontece. Isso já faz parte do fazer cinematográfico dele. Por exemplo, uma briga de Barden com uma Penelope Cruz enlouquecida. A sensação de assistir a improvisações é bem comum quando se trata dos filmes dele.

5.11.08

selvagem

ouvindo dona ivone lara na tv. gosto de decepção na boca. no estômago, culpa. na cabeça, grilos. o som de grilos. tão bom ouvir essa música agora. no peito, saudade de quem está perto. culpa. gengivas superiores inchadas. amor amor amor. decepção.
deception=engano. desengano. quando eu estiver desenganado vou querer esse momento de volta, por mais impregnado de culpa, decepção e grilos cantantes que seja. esteja. poxa, ela só canta coisa boa. hoje cantei tempo perdido. gravei minha voz cantando e ri do timbre arnaldo antunes. o ar faltou bem em selvagem. musicalidade zero. diz que tem relação com a audição. quem tem bom ouvido é afinado, dizem. e as cordas vocais? cantar é estranho, porque eu não canto simplesmente. eu também me escuto, então é estranho. devo me escutar mal então. simplesmente isso. pronto, posso ir dormir agora. cheguei numa verdade, reconhecida de pronto, irremediável: não me escuto bem.

4.11.08

Conduzindo Mr. Chiasson

Here Follows an Account of the Nature of Birds

Dan Chiasson

Here Follows an Account of the Nature of Fish.
Here follows a description of an unknown town.
Here follows the phoenix-flight from human eyes.
Here follows the friendship fish and langouste.
All the marvels of erotic danger follow here.
Here follows the phone number of a dead person.
Here follows a game based on perfect information.
Five minutes have passed since I wrote this line.
I mistook my baby’s cry for the radiator hiss.
Here follows the address of a place to buy cocaine.
Big sadness come your way, sunrise, skyline.
Let’s do it some new way next time we try.
Do you have anything you can put inside me?
Here Follows an Account of the Nature of Birds.

tradução:

Segue-se um Relato Sobre a Natureza dos Peixes.
Segue-se uma descrição de uma cidade desconhecida.
Segue-se o vôo da fênix a partir de um olhar humano.
Segue-se a amizade peixe e lagosta.
Todas as maravilhas do perigo erótico seguem aqui.
Segue-se o número do telefone de uma pessoa morta.
Segue-se um jogo fundamentado em informação precisa.
Cinco minutos se passaram desde que escrevi essa linha.
Confundi o choro do meu filho com o ruído do radiador.
Segue-se o endereço de onde comprar cocaína.
Grande tristeza vem na sua direção, alvorada, horizonte.
Vamos fazer diferente da próxima vez que tentarmos.
Você tem algo pra colocar dentro de mim?
Segue-se um Relato Sobre a Natureza dos Pássaros.

Dos autores que leio na rede, Dan Chiasson é o que menos possui dados biográficos e outras informações. Talvez ele seja tão ruim em se auto-promover quanto tarcozan. Ele tem livros publicados e alguma coisa disponível na web em boas revistas literárias como a paris review. Gosto dos textos dele, este é o segundo que traduzo e pela segunda vez tenho a impressão que, tirando uma linha ou duas, fui eu mesmo que escrevi. Dan é professor universitário, algo bem comum nos states: professor>escritor/poeta. Esse trânsito entre vida acadêmica e artística é menos incomum do que por aqui. Gosto do estilo desse poema, que me lembrou Bernadette Mayer, outra poeta, acho que uma geração anterior a Chiasson, também pouco falada e comentada pelos canais (the new yorker, granta, etc...) deles mesmos. Bernadette tem ótimas estratégias de construção textual, onde o exercício da escrita é tão importante quanto o que é escrito. Por exercício de escrita pode-se pensar em criação de listas, notas sensoriais sobre tudo que acontece num dado instante, escrita de textos tendo em mente exercitar tempos verbais, tópicos (por exemplo, algo que não possa ser escrito "artisticamente" - como um índice - rsrs), lembranças (aquilo que de mais imediato venha à mente). Pode parecer desapego ao conteúdo, mas na verdade é a comprovação e conseqüente capitulação à onipotência do conteúdo, do sentido. Não existe o não-conceito. Até o nada, o zero, o vazio, a inexistência têm sentido; simplesmente existem. E eu viajei.

Traduzir é uma ação que acaba levando a vítima a se apaixonar por seu carrasco. A impossibilidade de conseguir um efeito, ao menos aproximado, no português com as rimas internas nesse poema do Chiasson é frustrante. Não consigo, daí eu amo.

26.10.08

chocolate

mesmo pressionada pela presença dele, ela não se decide. um simples chocolate! pelo amor di, pensa ele, enquanto põe um sorriso de condescendência no rosto mas trai a impaciência oculta com um olhar incompatível. ela sabe que ele não gosta de esperar. constrangida e ainda totalmente incerta se opta por um tablete com recheio cremoso de avelã, ou hortelã, ou aquele por qual suas papilas ejetam microjatos de saliva, lhe encharcando a boca:o super simples chocolate com recheio crocante, ela retira da prateleira o único que ele também irá comer: chocolate branco.

vencida, ela lentamente perde o desejo enquanto pondera o porquê de tanta anulação quando está com alguém. e mais, por que está sempre com alguém? ela então se choca com a cadeia de essencialidades que vem à sua mente na fila do supermercado. ela ouve maybe not, cat power. por que não deixar esse chocolate pra trás? melhor! por que não deixar esse cara que gosta de chocolate branco pra trás? essa é óbvio, ela conversa consigo, porque eu ficaria sozinha. mais uma vez. talvez não, ela não sabe a letra de maybe not mas gosta da música. ela se vê possível apesar de embaçada na parede de vidro à sua frente. ela desiste do chocolate branco e diz pra ele não quero mais.

25.10.08

Adiamentos

Dei com meia dúzia de gente atrás de unidades
um jornal, um cartão telefônico, um bombom
O homem da banca ergueu a cabeça pra mim
a cigarette, eu disse, sem querer dizendo
Imediatamente corrigi o lapso: um cigarro
Um rapazinho loiro sorriu com o canto da boca
Talvez nada mais admire o homem da banca
Com o isqueiro preso numa corrente
Acendi o cigarro por cima dos cabelos acesos
do rapazinho, que me acotovelou e disse
licença aí fera - Sure!
Dali saí com um poema cru.

Sozinho no mundo, sem papel nem caneta
eu era um homem repassando frases
catando palavras cuidadosamente -
elas também desmancham.

Até esqueci de uma vingança, veja
E não sou de protelar desforras.
Então eu estava para adiamentos
Pois até mesmo as frases do poema
precisaram esperar.

Diante de um corpo estendido no chão
tão alguém, eu parei com tudo.
Foi atropelado? eu quis saber
de um homem ao lado.
Parece que sim, ele disse,
por uma bicicleta.

Estirado no asfalto, o rapaz mirava o céu
sem estrelas. Ao lado dele, passei a fazer
o mesmo. O homem ao lado também ergueu
a vista pro alto. Fez-se um círculo
de cabeças vasculhando o infinito.

12.7.08

Agora

estou cultivando plantas e contos. não, são apenas imagens fugazes e mutantes que podem virar contos. e sonhos, difusos, de que aparo o que posso pela manhã. também pessoas. na verdade apenas algumas delas.

9.7.08

Jocasta

Jocasta é o nome da minha arruda, uma planta ainda muito frágil e pequena. A primeira opção seria chamá-la Rute devido à sua família, das rutáceas. Mas chamá-la Jocasta foi imediato.

Eu não sabia da crença dos gregos de que ela afasta doença, nem daquela dos africanos de que a planta afasta vibrações negativas. Vi agorinha pesquisando no wikie "é uma planta poderosa para descarga de íons positivos (nocivos) e de vibração emitida por inveja ou feitiço. Misturadas com outras ervas ou flores é um precioso componente de banhos mágicos para amor, sucesso e atração do que se busca. Um arranjo de arruda e rosas, faz as rosas durarem mais, e limpa o ambiente, trazendo clareza e proteção."

Jocasta chega em boa hora.

24.6.08

Rapace


Já reconheci ao te ver
Uma possibilidade de gozo
Nuvem passageira que paira
Inunda e segue pro sul
Oeste ou norte daqui
Rapace águia corsária

Imagem de David Wojnarowicz
"Untitled," 1988.