20.1.11

Sarah Kane


Lembro da cara espantada de uma vendedora quando eu perguntei se havia algum volume de Adoro Morrer, um livro de contos que comprei faz muito tempo. Lembro que a vendedora disse muito timidamente "Deus me livre, eu adoro é viver." Ontem eu pensava sobre o "fascínio" que tem essa coisa toda do suicídio. Pelo menos para algumas pessoas, o assunto desperta no mínimo um recolhimento rápido, uma parada pra pensar (e pesar), por mais que num primeiro momento o suicídio pareça algo que escape ao entendimento. Por mais que comunique apenas uma sensação ligeira, como quando você não encontra a palavra certa e a pessoa na tua frente diz "tudo bem, eu sei, eu entendo". A sensação que causa o suicídio é como essa frase "eu sei". Não representa o fato (a pessoa não sabe exatamente), mas sente um resquício de entendimento, e com isso acredita ter adivinhado o que o outro não conseguia expressar. Bem, nem eu entendi muito bem o que eu disse, mas a idéia do suicídio causa essa parada, essa imprecisão mesclada com espanto e admiração. Quem se mata parece exercer um tipo de soberania existencial que somente quem é gente é capaz de exercer.

Digo isso também porque ontem comecei a escrever um poeminha para o vira-lata ancião aqui de casa, que tem sofrido muito com mazelas da degeneração física. Ninguém sabe ao certo a idade dele, Bob, mas acreditamos que está chegando na casa dos vinte. Eu quis dizer no poema que o Bob, pela natureza hedonista dele, provavelmente pularia de um prédio ou se afogaria caso não fosse apenas um cão. Óbvio, essa idéia tem mais viagem do que fundamento, afinal é um poema pra um blog que tem, se muito, um leitor ou dois: o traças.

Certa vez, quando eu conversava com uma amiga sobre fazer um trabalho envolvendo poetas suicidas,  Plath e Ana C., acabamos descobrindo a dramaturga Sarah Kane. Ela se matou no banheiro de um hospital psiquiátrico com os cadarços do sapato em 1999. Li agora mesmo um trecho de Phaedra's Love, uma espécie de releitura de um mito antigo escrita por ela. Eurípedes também o utilizou na sua tragédia Hipólito. Outros autores, como Sêneca e Racine, também produziram textos tendo por base essa história mítica, sobre uma mulher apaixonada pelo enteado (Hipólito), e que acaba encontrando no suicídio a solução para os seus males. Encontrei o trecho de Phaedra's Love no artigo *Phaedra's Love de Sarah Kane: Tradução, Adaptação, Encenação da professora Tania Alice Feix. O artigo discorre também sobre a experiência da montagem da peça pela Companhia de Teatro Partículas Elementares da Universidade Federal de Outro Preto.

Na versão de Kane, Hipólito é o personagem central, como sugere o título. Destaco aqui duas falas dele que ilustram um pouco a vibe da peça. Phaedra, apaixonada pelo rapaz, consegue fazer um boquete nele. Logo em seguida o enteado diz: "Pronto. Acabou o mistério. Agora que você me teve, vá trepar com outro." Imaginando uma filiação tosca no campo da ficção, esse Hipólito seria filho do narrador de First Love de Samuel Beckett! Quando Hipólito recebe a visita de um padre, que procura convencê-lo a negar o estupro da madrasta (Phaedra é estuprada!) para que assim fosse perdoado, ele convence o padre a também lhe fazer uma felação e em seguida joga na cara do padre: "Eu sei o que eu sou. E o que sempre serei. Mas você peca sabendo que vai confessar. Depois é perdoado. E começa tudo de novo. Como você se atreve a sacanear um Deus tão poderoso? A não ser que realmente não acredite nele." Isso é muito Beckett, claro, só que na década de 90. Na verdade, a indiferença, a desilução, o cinismo fazem entrever semelhanças com o bom e velho Sam. Vou procurar as peças da Sara. Por enquanto, é possível experimentar um pouco do que essa mulher interessante "pensou" para os palcos em adaptações para a TV que foram parar no youtube.

* O artigo compõe o livro Tradução, Vanguardas e Modernismos. Vários autores. 2009. Editora Paz e Terra.  

Nenhum comentário: