6.4.08

Vaga Alegria

Estava chovendo ainda a pouco e há muita lama e buracos nessa rua onde eu procuro socorro. Não consegui trocar o pneu furado, não pude evitar o buraco. Tem muita gente aqui, festa de um lado e do outro da rua. Tudo quanto é cor, nariz, altura e largura dançando no asfalto, ziguezagueando entre mesas, calçadas, barracas e carros.
Além dos calos secos na mão, a pele em fissura na base das unhas me causa dor. O borracheiro fica sempre um quarteirão além do que me dizem; a descamação da pele nos dedos arde. Se eu estivesse em casa eu estaria perdendo tudo isso que agora me desagrada, penso confuso. A chuva volta a cair e aí eu corro, com passadas curtas, pra debaixo de uma árvore. Como se estivesse comunicando alguma mensagem, imediatamente a chuva volta a dar trégua. Os relâmpagos deixam o céu violeta e duas fracas lufadas de vento fazem com que gotículas geladas da mangueira respinguem sobre mim. Dois pequenos gatos cor de chumbo abrem a boca em minha direção. Também estou com fome e, cada vez mais calmo, bocejo.
Mais parece que estou num mundo de dimensões menores, pois além da mangueira e dos gatos, vejo agora um homem pequeno se materializar das sombras. Ele entra debaixo da árvore e, como se não desse por minha presença, põe o sexo pra fora e mija demoradamente. Acho que eu teria contado um minuto inteiro até a urina dele cessar. Está bêbado. O desconhecido balança o sexo com violência e o barulho é tosco. Decido retomar o caminho, que nem sei mais qual é, e em resposta à minha decisão a chuva retorna me fazendo permanecer onde estou. O homem é um tipo asqueroso; está se marturbando e rindo, balbuciando frases incompreensíveis. Ele olha pra mim e diz boa noite, sorrindo. Vê-lo é penoso e ao mesmo tempo irritante, provocador. No entanto, a indiferença com que ele expõe o pênis, apertando e puxando, revela um apelo que não tem nada de sensual. Uma tentativa inadvertida e instintiva de intimidamento, talvez, ao mesmo tempo em que depõe a própria incapacidade de defesa. Apesar da embriaguês há uma profunda desolação nesse homem. Seu sorriso é de uma tristeza vasta.
Lembro do carro que deixei pra trás. Devo estar bem longe dele. Saio pra debaixo dos respingos longos e finos que desabam numa linha entre horizontal e vertical. Estou bem molhado e frio, já não sinto mais incômodo algum nos dedos. Onde tem um borracheiro por aqui? Pergunto a um motoqueiro. O único por aqui a essa hora é aquele senhor ali, debaixo da mangueira. Não me surpreendi, algo me dizia que conhecer aquele homem seria bom. Vou de encontro a ele sentindo uma vaga sensação de alegria, pálida, na verdade não chega a ser alegre, mas algo ainda pulsante. Diviso na sombra úmida a tensão no rosto do homem, o tom amarelo dos seus dentes, um vislumbre de pavor.

1.4.08

Esse Shakespeare

Que obra-prima é o homem!
Como é nobre em sua razão!
Que capacidade infinita!
Como é preciso e bem feito em forma e movimento!
Um anjo na ação!
Um deus no entendimento, paradigma dos animais, maravilha do mundo. Contudo, pra mim, é apenas a quintessência do pó. O homem não me satisfaz; não, nem a mulher também...

Hamlet (tradução do Millôr)

25.3.08

Bicho homem

Aos poucos a criatura selvagem vai se rendendo, individualmente, em meio à dificuldade terrível provocada pela fome. Mas render-se é tudo o que faz, a domesticação é tudo o que se consegue; ela jamais se sente em casa. Pode-se carregar um macho e uma fêmea ano após ano numa mesma alcândora; nada acontece. Vão parar de brigar, mas permanecem solitários. Um mútuo desdém por terem cedido, ou um autodesdém, parece partir seu coração. A rendição jamais é aceita de fato, jamais é legada.

Glenway Wescott
O Falcão-Peregrino

23.3.08

Music for Vampires, Cocteau Twins

Música

Quando a música nos toca e leva às lágrimas, aparentemente sem razão, não choramos, como Gravina supõe, por ‘excesso de prazer’; mas pelo excesso de uma impaciente e petulante dor que, como meros mortais, ainda não estamos em condições de desfrutar por completo esse êxtase sublime; a música nos permite apenas um indefinido vislumbre.

Edgan Allan Poe

18.3.08

Pra não esquecer

Quando ficamos doente, fazemos promessas: cuidar melhor da alimentação; prestar mais atenção nos sinais do corpo e agir mais rápido; ir mais aos médicos; nunca mais descuidar de si...

Minha promessa: nunca mais cuidar dos outros; viver rei sem súditos.

12.3.08

7.3.08

tu tu tu

Vicêncio sente o céu da boca escapelado com a língua, acende o cigarro enquanto ouve com uma fagulha de alegria as músicas da Amy.
O tal Gabriel deu o telefone errado; não queria nada, só o flerte. Filho da puta! Certamente nem Gabriel se chama. Marcílio, que um dia Vicêncio recusou, agora está muito bem casado, obrigado. Quem topava todas sempre, Rafael, adoeceu e não quer falar sobre isso. There makes no difference if I end up alone! Será essa minha sorte? Vicêncio pensa assim, simples mesmo. Carlos está fora de cogitação, sacana incorrigível, quer tirar vantagem em tudo. Apesar de insuperável na cama, no banheiro, na cozinha. Love is a losing game! Oh yeah Amy. Talvez seja o momento de pensar na Kelly. Será que ela ainda me ama? Crente do jeito que é, talvez sim. Vicêncio baixa o som e liga pra Lola.
"E aí?"
"Diz baitola!"
"Ei, tou down. Acho que já tou cansando desses caras. Sabe, tou pensando em dar um tempo e namorar mulher."
"É, manda ver."
"Preciso de alguém que ligue pra mim, sabe, alguém que escute meus medos e tudo e tal. Sexo, não acho que precise tanto disso agora."
"Sei." Lola ri e promete ligar num instante, precisa ir ao banheiro.
Vicêncio permanece ouvindo o som mecânico e repetitivo do telefone fora do gancho.
They try to make me go to rehab. Vicêncio repete ritmado com o sinal enfadonho: no, no, no.

hahaha

Sorte de hoje: você é o mestre das ilusões.

3.3.08

Duas Gatas em Teto de Barro Quente

Jô: Olha, acho que o maior problema agora é você perceber que está tudo em suas mãos. Você precisa começar a transar urgentemente!
Gi: Transar urgentemente? Bem, sexo é bom, claro! Tá, eu transo e tudo mais, e depois? Tou fora, sexo por sexo a gente encontra fácil. Tenho medo de arriscar e quebrar a cara.
Jô: Bem, é preciso quebrar a cara.
Gi:Mas quebrar a cara machuca demais o coração....
Jô: Esse também precisa ser machucado de vez em quando.
Gi: Sou muito sentimental. Isso me atrapalha muito.
Jô: Você precisa começar a transar urgentemente.

29.2.08

Back to Light

Não vou medir palavra nenhuma. Meu critério é simples: a que vier voa, e, não vindo, fica muda.

Perto eu sei não vou ----
estou nas alturas sem ar, sem morte
Não há dentro no alto

26.2.08

The Colds

My body is such a piece of glass. I caught a cold. The TV is on all the time in this room in an attempt to make it snugger, but television seems to desolate it more. I still don't know if not letting myself to be caught in the cage of love was a big mistake. What is clear is that it's all done.

Everything looks boring now. It's the cold.

Not even music can fade the boredom away. I put Bebel Gilberto's Momento on and slept uneasily, fearing something. Something that could burst old accusations at any moment. My nightmares are about accusations on me, exactly like in Kafka's The Trial.

When you have a cold, reading In Cold Blood is hopelessly gloomier.

22.2.08

I Loved Them Until They Loved Me

I was tender and often true
Ever a prey to coincidence
Always knew I the consequence
Always saw what the end would be
We're as Nature made us -- hence
I loved them until they loved me.

Dorothy Parker (but could easily be mine).

15.2.08

nada de muito específico

O melhor do Titatic, o filme, é o trailer, mais precisamente quando Kate e Leo estão lá no topo, na proa erguida, imensa, perdidos, à luz da lua, fodidos, sem ter o que fazer além de esperar que afundem.

Hoje eu era a pessoa morta, que na verdade é quem está viva, no meio dos vivos, que na verdade estavam mortos, numa reunião de trabalho. Retirei meus óculos para torná-los ainda mais fantasmagóricos, era preciso que eu lembrasse quem era quem. Eles falavam e riam, eles eram os outros. Não, esse furto de plot não é furto. É que tudo que acontece, já aconteceu, percebem?

11.2.08

Versos Remotos

California Raining por Madeleine Peyroux, em execução


Encontrei com ele debaixo do sol de meio dia. Chegamos juntos, vindo de lados opostos da rua e paramos ao lado de um jardim de pedras. Engraçado como nos encontramos quase sempre nessas horas assassinas.

O barulho de carros que me entontecia logo é abafado, a luz que me torpedeava a vista torna-se apenas luz. Que bela figura, ele. Como gosto de vê-lo sorrindo sem graça, o corpo ainda desengonçado. Sobre o seu jeans desbotado há uma mancha bem viva de caneta bic estourada. A mancha parece o mapa da Itália. Ele diz nunca ter prestado atenção no mapa da Itália e suspira. Ele torna-se emotivo quando estamos juntos. Ao telefone é distante e desinteressado. Agora lembro os poemas que um dia ele escreveu pra mim, umas vinte páginas manuscritas entregues por suas mãos morenas e magrelas, trêmulas. Pediu para que eu apenas lesse e jamais comentasse. Nunca os li, permanecem dentro da mesma pasta fumê pouco mais de um ano depois. Tento me arrepender por não saber o conteúdo daquelas páginas, mas não consigo. Existe um prazer em mantê-las mudas.

Ele sorri, admirado com a simetria das marcas de suor na minha camisa. Repetimos tudo bem, para perguntas e respostas, duas vezes seguidas e não sei porque estamos nervosos. Nos abraçamos, arriscando mais naturalidade. Beijo-o no pescoço, e me arrependo. Sua pele não tem o mesmo cheiro. Por que não estamos fluindo? Me pergunto enquanto olho para um cactos enorme.

O hálito dele cheirava ocre, os olhos tão mal dormidos quanto os meus. De súbito ele me agarra, como um cão desajeitado. Seu coração bate veloz e tento não pensar em mais nada. Não importa a buzina dos carros, nada importa mais do que a falha dos dentes dele aparecendo dentro do sorriso amplo. O entusiasmo dele dizendo eu consegui, nossa, eu consegui! Que reação exagerada, penso eu traindo o momento. O que não esmorece a excitação, ela cresce. Conseguiste o quê, rapaz? Quero saber dele, fingindo desinteresse como um pai convicto. Vou embora pro Rio, ele diz. O entusiasmo, o exagero, o sorriso, a excitação. Eu não entendi muito bem, mas calei, fixando a quase perfeição da Itália em miniatura.

Tarco Zan

29.1.08

Pela janela do quarto

Amarelo com preto é amenizado em fundo verde com toques laranja. Amarelo com preto é em si completo, mas se isolado das outras cores perde algo. Um fiapo de delicadeza, que muda tudo. Amarelo com preto precisa pousar sobre o alaranjado, que com luz mais ou menos intensa torna-se salmão, para ser admirado. Amarelo com preto tem que ser breve, passar por dentro do verde e sumir para que sua brutalidade não seja a única impressão. Amarelo com preto não é fraterno, mas é perdoado se em fundo azul.

17.1.08

Quando Tarco Chorou

Doug disse que, se fosse hoje, Clarice seria ignorada. Não dei corda, não perguntei porquê. Não tenho paciência de receber certos esclarecimentos, não mais. Não tenho paciência de cativar certos seres, também.
O pior do humano, pra mim, é o ser humano. Melhor dizer que o pior do humano são os seres humanos. O melhor do humano é uma coleção de boas coisas, que infelizmente não sobrepõe o pior do humano. A criação é das melhores coisas humanas e os criadores são as pessoas mais interessantes, pra mim. Com a criação os significados, muitos deles, se revelam. Há muita revelação quando se cria. Revelação do próprio indivíduo criador: eu sou isso, e muito mais.
Diante do criador revelado, diante de apenas um viés do vasto universo que é um artista, o interlocutor pode mirar a própria imagem. O desnudamento do que se é por um outro, por um estranho, é um choque. Esse choque ou reanima o que adormecia, o intelecto, ou não. Ou toca, ou não toca. Então há seres capazes de coisas desse tipo, deslumbrar seus pares, mostrar que somos todos tanto ordinários quanto únicos. E isso é grande, glorioso.
Aqueles capazes de tal feito, de nos revelar, são únicos e preciosos. Ian McEwan transforma-se em superfície lisa de água, um lago escuro talvez, calmo mas sinistro. Diante do pesadelo, causado por nós mesmos, temos a delicadeza de afagar os nervos alheios. Beijar o machucado. É irritantemente cínico, mas não deixa de ser tocante, portanto, humano.

7.1.08

Epístola a um ventríloquo

Caro Peter Walsh,

Apesar da distância, preciso dizer que gostei de você. Dividimos muitas coisas: a nostalgia do tempo perdido, passado; o rancor por não termos sido incluídos na vida de quem gostaríamos; o desapego ao orgulho, simplesmente perdoamos porque não há tempo a perder; a incerteza absoluta sobre qualquer coisa que exista; nosso baixíssimo poder de cicatrização de mágoas amorosas; é foda. Espero que tenhamos a melhor vida que for possível. Estou nas páginas iniciais tanto de sua história quanto da minha.

PS. Ela sabe o que faz.

Best Regards

TZ

4.1.08

EX VOTO


1) Fazer-me difícil
Não telefonar pra Juán
Excluir possíveis recaídas
Dar pequenos passos

2) Centralizar myself
Deixar os outros em paz
Reerguer ou começar do zero?
Voltar a olhar o céu

3) Reter mais experiência
Deixar o excesso de dó pra traz
Acertar o momento do bote
Ação em conluio com paciência

4) Conservar o mel
Cultivar também afeto
Repudiar se incorreto
Salvar as idéias do léu

5) Banir o blá blá blá
Livrar-se de culpas
Sarar-se de mágoas
Deixar de deixar pra lá

3.1.08

Bolha

Deus me livre de viver num lugar como aquele.

Beirute?


O filme se passa em Tel-Aviv, não é não?


Ah, você diz esse filme de agora. Eu estava pensando exatamente em outro filme, O Céu de Beirute, com uma atriz chamada Flavia Bechara. Mas Tel-Aviv parece tranqüilo em relação ao resto daquela região.


Mesmo assim, não piso ali por mais interessante que seja.


Mas você gostou do filme?


O Céu de Beirute?


Não, esse que acabamos de ver.


Mais ou menos. Algumas cenas são boas.


Nossa. Eu achei forte, concentrado, impactante, tipo um ataque terrorista.


Mas o filme é sobre um terrorista árabe que mata o amante judeu. Lembrei do Bloc Party If you are the answer we are going straight to hell.


Sim, mais eu falo da sensação que eu tive com o todo. Eu me coloquei no lugar daquelas pessoas, árabes e judeus, vendo aquele filme. Deve ser forte pra eles.


Não sei. O noticiário por lá deve ser repleto de histórias similares, com muito sangue e barbárie. Talvez eles não se choquem mais, assim como nós e a nossa violência por aqui.


Pela cara, você definitivamente não gostou do filme.


Tou puto com a bicha gorda de cavanhaque que sentou do nosso lado. Além do chulé, ele me manchou a calça.


Mas é preciso ser tolerante.


Por mim, o bolha folgado voava pelos ares.